sábado, janeiro 18, 2003

CONTA GOTAS



Em cada gota que escorre uma onda se forma.
Nas milhões de voltas e círculos, uma nova mensagem.
Expansão do que está circunscrito ao universo das águas.
Um oceano gravitacional em espiral.


quarta-feira, janeiro 15, 2003

SEIXOS

Já falei de tempestades e o que elas significam. Contei da afinação com Iansã e o aspecto brejeiro que conduz raios e trovões, desafiando o medo em alguns e produzindo uma energia além da convencional.
Vendaval e tempestade. Recebi dois emails falando em vendaval, sincronicamente em situações distintas: um dizendo de um forte vento que chegou e varreu o amor; e o outro me perguntando como está minha cidade após o vendaval. A cidade está aos poucos se recompondo, mas ainda há muita lama, muito paralelepípedo a ser posto no lugar, pontes a serem restauradas e o lixo varrido de uma das entradas de Petrópolis. A magnitude da água que desceu dos céus deve ter sido compatível ao dilúvio bíblico. Diante de tal força da natureza nos sentimos diminutos e estranhamente à mercê de algo além daquilo que olhos e razão captam. Se o ‘imponderável’ quisesse levaria todos à morte, sem dó, sem trégua. Uma hora a mais seria fatal, creio eu.
Iniciei um curso de espanhol turístico. E para minha surpresa um ‘recordar é viver’ estético sobrevoou todo o discurso e diálogo travado ao primeiro contato. Consuelo é o nome da professora, cujo retrato acertei na mosca, depois confirmado com ela: dançarina de flamenco, faz teatro, leonina e com ascendente em Capricórnio.
O inconsciente coletivo do grupo retratou aspectos arquetípicos espanhóis, tais como: touradas, flamenco, homens de boné e jaqueta, vinho, gastronomia, além da famigerada cesta. Uma figuração Andaluzia.
Consuelo entende tudo de hotelaria, turismo e domina perfeitamente o espanhol. Morou dez anos na Espanha. Explicou um pouco de geografia e a disposição das línguas faladas: o basco, o gallego, o catalão e o espanhol . Minha mente parou na Catalunha, talvez porque essa região sacode e remete a Dali. Sim, As Paixões Segundo Dali. Um livro esgotado que emprestei e dancei. Lá ele fala dessa paixão por sua terra, por Gala, e a crença Midas, de tudo que viesse a pintar viraria ouro. Confesso que Picasso e Velásquez ainda surgiram em imagens diluídas e sem continuidade, mas estavam inseridos no contexto.
Minha vizinha ao lado, em completo delírio, confessou a vontade de fazer o Caminho de Santiago, mas partindo da parte francesa, segundo ela a rota mais bonita e interessante. Sem dúvida, começar pela França é um start privilegiado. Eu não sinto essa vontade de peregrinar por lá e nem trocar meias, bolhas e contatos como fez o mago e quer essa minha nova amiga. O meu roteiro pela Espanha seria outro, com certeza, muito distante de albergues, cajados e encontros mágicos.
Amanhã damos prosseguimento ao encontro com as origens espanholas.




segunda-feira, janeiro 13, 2003

DOS LABIRINTOS

O fog sufoca azaléas e o ar rarefeito, cinzento.
Na essência um ranço de saudade nascido de pesadelos em sucessão.
Gotas salpicam ciprestes e lágrimas encharcam o ser.
É noite aqui e lá fora.

sexta-feira, janeiro 10, 2003



Tirou o que encobria a rósea tez.
Olhou-se lentamente, sem pressa: admira-se, gosta
do que vê refletido. Vira para cá e para lá.
Iluminada e clara, desenho secreto, pares fechados, ora abertos.
Sangra, cura, vive os ciclos. Poder.

Só quem traz a marca na alma conhece o sentido dos dias
de dança e entrega perpétua.
Sabe como lidar com o vermelho, com o que escoa sem
retenção, cachoeira em fluxo avassalador.
Vício empapuçado, salvaguardado, rara cobiça,
inóspita sensação buscada por poucos, por quem não teme
seguir em frente e deixar os instintos incorporarem,
lambuzando-se e integrando-se à energia primordial.

Sim, nessas horas a Lua no crescente, abre a cortina à primeira
estrela a surgir no quadrante ao lado, estampando um antigo par cultuado
por povos obcecados em manter sua origem: lua e estrela.
Como a tatoo que marca o pé da dama de cabelos ruivos,
longos, em cachos, desalinho dos contornos de sua figura
indomesticada.

Esparramada na alvura transforma a monotonia branca em mandala de mil fios, sob o olhar de cima para baixo, amarelo, felina íris, feito a flor de mesmo nome que é mural de algumas frases de uma música de Vercilo. Um pps sobrepondo os cromos de uma estória de amor.
Livre, reflete nua Cibele, garantindo o espargir de energias durante o sono e a promessa de que Gaia acolha seu pedido.




quarta-feira, janeiro 08, 2003

A TRAVESSIA

Deixou de estar ao alcance da mão. Bateu asas, partiu, voou, para algum lugar que desconheço e não sei o endereço. Pode ser que um dia retorne embrulhado nas asas de Eros, o marido-amante-apaixonado-misterioso, num rosto escondido por um capuz e só se deixe ver quando a forma tomar corpo e largar de ser só uma condensação energética.
Enquanto isso, rabisco outros projetos, contrários aos já vividos. Outra porta se abre me chamando, dizendo da urgência de realizar, ensinar e distribuir. Um pouco de generosidade diante daquilo que a vida já me ofertou ao longo dessa peregrinação. E alegro-me por mais um desafio, não canso de gostar da aventura, de não saber se no horizonte à frente existirá uma ponte invisível a me levar a outra metade da montanha. Se o passo seguinte pode jogar-me no precipício ou ao mais incrível encantamento, através de uma passarela faiscante a promover o encontro entre metades, suspensa pela coragem, materializada pela vontade e impulsionada pelo desejo de transpor.

terça-feira, janeiro 07, 2003

DIANDRA & SELENE

Lá onde moro, na Terra de Muitas Palmeiras, corre um vento noturno que, por motivos vários, batizei de Diandra e como a tal andava sumido.
Esta madrugada acordei sobresaltado. A casa tremia, portas e janelas eram forçadas com fúria e um rugido enchia o ar.
Era "Diandra". Com uma força e uma ânsia que eu jamais vira.
Levantei-me apressado e semi-nú sai para o quintal. "Diandra" envolveu-me, sua energia invadiu-me de tal forma que me sentia carregado por suas asas. Mas havia algo mais. Uma outra energia. Abri os olhos e contemplei os campos e montes brilhando sob uma luz branca, etérea. Algo agitou-se dentro de mim. Algo antigo, primitivo, selvagem. Algo que queria libertar-se e correr, caçar sob aquela luz. Um predador.
Voltei-me para o céu e lá estava ela, como uma amante em seu leito. Lânguida, sedutora, soberana, com um brilho tão intenso que as próprias estrelas se retiraram, deixando a noite só para ela. Sua força, poderosa como a do Astro-Rei, meu regente, mas diferente. Suave , terna. O animal acalmou-se. Algo mais elevado principiou a surgir em seu lugar.
Adormeci com o toque de Selene na pele e os sussurros de Diandra nos ouvidos.
Sonhei com ambas.

Daniel Agar Andros


segunda-feira, janeiro 06, 2003

GASPAR, BALTAZAR E MELQUIOR

Dia de Reis é marco, sinaliza o desmanche, hora de todos os objetos que ornaram a casa retornar às caixas de papelão, voltam ao seu lugar de origem: os armários.
Há uma simpatia sugestiva, justamente por ser uma crendice popular e usar o nome de Jesus para trazer todo o ouro do mundo para cada um que chupa os caroços de romã. Seis, o dobro, o trio duplicado. Gosto de sete, faria com sete coroços ao invés de meia dúzia. Aqui todos tem o hábito de fazer esse ritual, despejando na terra os caroços secos velhos da carteira, enquanto os chupados e inteiros entram num novo embrulho, num canto secreto da bolsa de notas.
Retornei de uma viagem com o aconchego de malas saudosas, tomada de carinho e a cumplicidade que marca o encontro com amigos verdadeiros. E comecei hoje um novo empreendimento, ousado eu diria, mas que promete alastrar o que precisa ser passado adiante, um desafio, do jeito que eu gosto, desmoronando a previsibilidade e deixando o caminho aberto para o inesperado...
E vamos em frente pedindo: ouro, incenso e mirra aos reis.





quinta-feira, janeiro 02, 2003

1 ANO



Completamos ontem um ano de vida. Gostaria de estar num daqueles momentos inspirados e contar um pouco desse percurso. O que posso dizer é que senti vontade de escrever, de expor meus sentimentos e percepções sem ter compromisso com coerência e nem com ninguém, justamente porque aqui só retornaria quem coadunasse com minhas sandices, diferente de listas de discussão. E então descobri que aqui eu poderia postar, discorrer sobre o que bem entendesse sem ferir a suscetibilidade alheia e por aí vai...
Parti para um mundo solitário, aonde em minha ilha só chegaria até esta margem quem se sentisse em casa, nessa enseada revolta, estranha e às vezes apaixonada. Só os que compartilhassem cavalos selvagens, primitivos e ardentes, conjugariam afinidade com o que vai por essas águas...
E por meio dela esse espaço ganhou layout, o colorido que reflete a mescla solar. Aos poucos as Anas foram mostrando a sua cara através dessas linhas que vou dia-a-dia rascunhando. Imperfeitas, despidas de sentido para muita gente e transbordante para outras...refletindo a luz e as sombras que existem cá dentro.
A você que me lê agora: tim-tim, um brinde a 2003!