quarta-feira, julho 28, 2004

DOS AMIGOS

Ganhou uma rosa azul e trouxe junto um mar colorido.
Pérolas a criar uma nova atmosfera lúdica e lúcida.
Verde como os tons que cercam as matas, intercalado com prata.
Coisas da moça de olhos d?água.
Tatoos três. Átame, espada, flor de Iansã.
De tempestades nada têm. Tem lógica e bom humor.
Sentou num dos bares tradicionais daqui.
Onde os quitutes e caldos são famosos.
Sucumbiu ao chope preto e bolinhos de bacalhau.
Não resistiu e se fartou de waffle com presunto.
Pequenos pedaços deglutidos ao compasso de troca.
Amizade, alegria e claridade.
Ela é assim. Sua vinda aqui, também.
Na cidade nevoada, fria e úmida,
Um céu de Manaus desceu, irradiando sol nessa paisagem cinza.
Estar com ela é sempre motivo de aprendizagem.
Amiga é teu nome.
Ainda ia às cartas, as de baralho comum.
Gosta das previsões e dos achados do Candomblé.
Falamos de entidades, santos e achados espirituais.
Pus ela no ônibus, lá se foi com seus cabelos dourados,
olhar sincero e dignidade.
Um abraço apertado marcou a despedida.
Foi um dia raro, como poucos...

terça-feira, julho 20, 2004

JULHO

Pus os pés para fora do barco.

Armazenei forças com os raios solares.

Namorei as ondas que batiam incessantes.

Galopei e domei golfinhos e tubarões.

Errei ao acreditar num mundo feito de pedaços.

Imaginei errado.

Agora sei, tudo era um único bloco, compacto e fixo.   
  
    
 



segunda-feira, junho 28, 2004

DIA BRANCO
 
A folha, o dia e você.
Isso remete a uma música de Geraldinho.
Talvez nós estejamos mesmo percorrendo essas linhas imaginárias e escuras.
As que atormentam sua mente e mexem com o diálogo.
A fumaça invade, cheiro de folha queimada, lixo sendo destruído.
Castelo também fica assim nessa época. Uma bruma com pitada de sol.
Um ar nem quente e nem frio, imagens sobrepostas e claras só à frente,
quando a vista consegue captar.
A letra diz assim:

"Se você vier pro que der e vier comigo
Eu te prometo o sol...se hoje o sol sair
Ou a chuva...se a chuva cair.
Se você vier até onde a gente chegar,
Numa praça na beira do mar.
Um pedaço de qualquer lugar.
E neste dia branco se branco ele for,
esse tanto, esse canto de amor.
Se você quiser e vier pro que der e vier comigo
Se branco ele for,
esse canto, esse tanto, esse tão grande amor, grande amor,
Se você quiser e vier pro que der e vier comigo. "





sábado, junho 12, 2004

JUNHO

Dia de dar beijo na boca.
Andar de mãos dadas, chamegar e dar um cheiro.
Respirar um pouco do que é.
Sentir seu calor mais próximo, deixar que o atrito se faça.
Colar meu corpo no seu.
Te falar baixinho no ouvido.
Pôr o arranjo na jarra, perfumar a casa de flores.
Perpetuar o que começou. Despejar o que se sente.
Regar o que há de melhor.
Viver o que a vida dá.


quarta-feira, maio 26, 2004

HORIZONTE

Deste lado a visão fixa-se numa linha imaginária.
Aquela que divisa a água e a terra.
A que implica com nossa exatidão consciencial.
A que desmorona a perspectiva ocular.
O movimento é repetitivo, como música que não dá trégua aos mesmos acordes.
Embala as flâmulas e os navegantes, os que desfilam em embarcações medievais.
O tempo colabora e o calor aquece.
O sal flutua na atmosfera festiva.

sexta-feira, maio 21, 2004

TUNICK



Pelos pubianos, auréolas rosadas, morenas.
Pênis pequenos, grandes, coloridos.
Nádegas enormes, disformes, perfeitas.
Cinturas quadradas, redondas, curvilíneas.
Pernas musculosas, gordas, flácidas.
Abdômen definido, caído, gordurento.
Cabelos que emolduram peles pálidas, coradas.
Numa centena de pessoas, um mar de ninguém.
Mulheres, homens, crianças, todos iguais.
À mostra, revelados, sem identidade.
Processo catártico, igualitário e despojado.
Na nudez proclamada e liberta: fraternidade.
No rasgar de panos e indumentária, o mesmo ser.
Diante da natureza a simplicidade das criações.
Padrões que se perdem em revistas e conceitos urbanóides.
Beleza que se distende e funde-se à paisagem.
Gaia acolhedora que abraça seus filhos como vieram ao mundo.


terça-feira, maio 11, 2004

INTERROGAÇÕES

qual causa nos reúne
na mesa deste boteco?

creio que a poesia é
quando muito
um pretexto

não é a bebida
já que há tantos abstêmios

quais moinhos combateremos
com as lanças ritmadas
umas toscas como a minha
outras finamente elaboradas?

é uma tribo o que somos?
uma gangue etária
mente eclética?
um grupo social
mente dessemelhante?

neste instante o meu windows média player
está tocando bye bye blackbird
com myles davis & john coltrane

deve haver quem ouça um samba
um fado
o silêncio
uma orquestra sinfônica

deve haver que ouça o barulho da cidade
as ondas do mar
o canto de pássaros
a narração vibrante de um jogo de futebol

e estamos
entretanto
todos no mesmo bar
todos no mesmo barco

para onde
afinal
navegamos
se para cada há um rumo próprio
um porto onde deseja chegar?

a solidão?

não
a solidão não agrega

o narcisismo?
a vaidade?
o exibicionismo?

creio que não
preciso crer que não
para não correr o risco
de envergar a carapuça.

que terras adubaremos?
quando semearemos os grãos?
quando será a colheita?
que frutos perdurarão?

quantos de nós pereceremos
sem um aperto de mão
apesar de agrupados
neste imenso salão?

além de uma língua comum
deve haver algo que nos una

não são os sonhos
não são as fantasias
não são ideologias
não são memórias

estamos todos aliados
sem que possamos
porém
nos olhar
nos sorrir
nos abraçar

qual pode ser a alquimia
que nos permite a intimidade
de partilhar angústias e alegrias
se não nos conhecemos
aquém e além das palavras?

qual estranha força me permite
trazer à baila tantas tais questões
transgredir as boas normas de conduta?

é preciso
agora
porém
que o dragão recolha as asas
há pratos para lavar
e uma vassoura no canto da sala.

Fred Matos

domingo, maio 02, 2004

MAIO



Saturno o grande senhor. O tempo.
Queria despejar um pouco do que anda retido aqui,
mas minhas míseras insipiências andam adormecidas,
como que envenadas por Eros, numa flecha, numa maçã.