sábado, março 08, 2014

É dado como hoje, dia 08 de Março, o centenário de criação dos heterônimos Ricardo Reis, Alberto Caeiro e Álvaro de Campos por Fernando Pessoa. É conhecido como O Dia Triunfal.
Sendo assim, nada mais justo que um poema dele venha ilustrar essa página. O poeta que a mim encanta por sua multiplicidade, por sua visão larga e alastrada sobre a vida, a existência e os sentimentos.
Pessoa mais que um amante da língua portuguesa e um poeta, sem dúvida nenhuma, um gênio.

quinta-feira, março 06, 2014

Amei com todas as letras da palavra,
a dita, a escrita, a não verbalizada, a que soa só na mente...
Amei de uma maneira tão pueril que se estendia à risadas comuns
a nós dois.
Amei tão de verdade, que o mundo parou, no instante em que
rodava suspensa em seus braços, numa loja de eletrodomésticos,
na madrugada...
Amei na primeira vez que seus olhos de mar miraram os meus...
Amei o primeiro lual com vinho e Deusa.
Amei todos os detalhes que a lembrança guardou
e que hoje se perpetuam na memória dessa vida...


terça-feira, fevereiro 18, 2014

Cozinha é oral.
Cozinha sem avental.
Cozinha tem sempre algo surreal.
Cozinha sensual.
Cozinha é atemporal.
Cozinha é o canal.
Cozinha cria temporal.
Cozinha e o aval.
Cozinha anal.
Cozinha e a vestal.
Cozinha com sal.
Cozinha...

Foto: Letizia Iman

segunda-feira, fevereiro 03, 2014


Zéfiro

Na coxia do teatro, envolve as formas curvilíneas num xale negro. Tira os acessórios que cobrem as extremidades: meias sete oitavos com renda marcando a coxa, luvas escuras na altura do cotovelo. Só a combinação de cetim, cor da pele, acompanha seus relevos. Mira-se no espelho, o olhar amendoado pelo delineador e os enormes cílios acentuados pelo rímel. O xale escorrega e entrega a pele tatuada, nívea. Prende os cachos castanhos num coque desalinhado. Vê-se como as outras. Não há nada de diferente naquele semblante. Lembra do que ele disse ontem num bar enfumaçado do centro da cidade, e continua não encontrando nada de especial no que vê refletido.

Inadvertidamente, o zéfiro sopra com força e move objetos do camarim, provocando o voo de plumas coloridas pelo ar... chapéus orbitam pelo ambiente, máscaras multicoloridas planando, um jarro de flores desaba. Não se importa, ignora os cacos espalhados pelo chão... Joga a cabeça para trás, gosta daquela sensação, deixa-se tomar por ele que percorre a derme sem pedir licença, invasor. Levanta-se da cadeira, escancara as janelas e permite que entre com mais força...abre os braços e o recebe em estreito contato: fecha os olhos.Inconsciente, revela o portal, a tênue linha que a faz redescobrir a mágica e permite que o feitiço se estabeleça nesse contato ancestral. Ela é como a noite lá fora, senhora de todas as estrelas; lânguida como a lua, deusa perpetuada pela forma redonda que cobre as cidades com seu arsenal de véus prateados.
Sabe que não pode ser retido nas mãos. É livre, solto, faz parte das correntes secas e movimento de massas oceânicas. A cada súbita visita possui um cheiro diferente...em cada lugar um outro vento se levanta...revolve energias, derruba castelos, destrói fortalezas, desarma certezas, amálgama outra mulher.

Foto: MrTom Fotodesign



domingo, janeiro 12, 2014

A felicidade é como vento...
beija a pele, sofregamente,
como poesia.
Produz sal na boca
quando próximo à maresia.
É perfume quando inala
chuva e terra molhada...
É música: melodia suave,
mansa ventania
e poderosa tempestade...
Mas uma coisa é certa:
sempre arrepia!


terça-feira, dezembro 17, 2013

Nostálgica como o cheiro do vinho tinto,
nas raspas de limão, na amendoeira que ladeia a rua,
no sabor de caramelo e infância...
Sim, nessa madrugada você faz aniversário.
Só posso desejar sempre felicidades.
Como eu te disse na despedida:
eu sempre vou amar você.



terça-feira, outubro 15, 2013


Ela sorria, desviava o olhar,
sabia que ele a queria.
Naquele exato momento, 
em que o foco se fixava nela,
onde ele ajustava a máquina...
Continuava a fingir que não era com ela,
sabia o que ele queria,
mas não se sentia totalmente confortável com o olhar dele...
O olhar que ia além do físico,
que perscrutava sua alma,
devassava suas dores,
a lembrava de alguém que tinha amado muito.
E, por isso, tinha medo, muito medo.
O olhar dele trazia essas lembranças,
histórias que talvez a tenham marcado para toda a vida...
E, por mais que evitasse, elas sempre existiriam em sua alma,
agora não a devastavam mais,
mas sinalizavam a intensidade do amor vivido.
Ainda assim, naquela gôndola,
displicentemente confortável,
ela sabia o que a esperava...
Naquele instante,
naquela foto que ele fez.

Foto: Luciano Bianconi

domingo, outubro 13, 2013

Tenho pensado intensamente em você.
Agora não sinto mais tristeza e nem choro mais.
Te dizer que não sinto saudades do "ei", é mentira.
Talvez porque a gente se acostume com determinadas
situações, pessoas e horas, dias...vai saber.
De uma maneira muito estranha você chegou,
eu te achei, nós nos achamos, sei lá...
Coisas que já me aconteceram por aqui e que
nem sei explicar racionalmente, porque não há
explicação racional.
Sei que num mundo feito de energia, as eletrônicas,
as nossas próprias usinas, acabam por trazer para perto
aquilo que emanamos, como um enorme radar...
Será que eu tenho predileção por pessoas fora do normal?
Que não se adequem a padrões?
Que sonham com bunkers?
Que me fazem acreditar que sou da família?
Que me tomam de tal maneira, energeticamente falando,
que parece até que nos conhecíamos anteriormente?
Vai saber...racionalmente nunca vou.
Bom, mas isso tudo é pra te dizer, se é que ainda me lê,
se é que ainda vem até aqui, que esses dias pensei muito em você.
Aleatoriamente, sem vontade, você veio na minha mente e, é lógico,
lembrei de nossa trajetória juntos...
Pus seu nome pra ver se tinha me desbloqueado...nada.
Meu querido, a vida é tão curta.
Espero que um dia você aprenda a ser mais flexível...
Sinto que sente saudades de mim.
Reflita.
Não há motivo para se endurecer assim...
Fazemos escolhas o tempo todo.
Pense nisso.
Se sente saudade de mim, mude a estação,
sintonize-se comigo outra vez...